← Voltar Incidente de Willowbrook

Incidente de Willowbrook

Vilarejo em névoa. Portas semiabertas. Vozes que não chegam a ser voz.

Capítulos: 18 SuspenseMistério

Primeiro Capítulo

09 de julho de 1967 Domingo, 10:30 pm


A noite já se espalhava por todo o Reino Unido. As ruas de Sunderland, que até há pouco recebiam o caminhar apressado de trabalhadores e famílias, agora se esvaziavam lentamente. As luzes dos postes projetavam sombras longas sobre o calçamento úmido, e as vitrines refletiam o brilho suave da lua. No alto, um céu pontilhado de estrelas se abria como um imenso véu negro cravejado de diamantes — uma visão que sempre me fascinou. Havia algo de reconfortante em observar a imensidão e imaginar o que se escondia além dela.

Subi as escadas até o meu quarto. Nada de extraordinário naquele espaço: uma cama de casal coberta por um lençol bege, uma escrivaninha encostada à parede, alguns armários discretos. No entanto, naquele momento, algo se destacava. Ao me sentar na beirada da cama, estendi meus braços magros até a escrivaninha e notei uma carta repousando ao lado da foto emoldurada de meu falecido marido.

Um arrepio percorreu minha pele.

Minha vida sempre foi marcada por pequenos desafios que, juntos, formaram um fardo pesado. Antes mesmo de nascer, minha mãe enfrentou complicações na gravidez, e isso deixou marcas permanentes. Desde o primeiro dia, o silêncio foi minha única companhia — nasci sem o sentido da audição. Minha infância exigiu mais que força de vontade: precisei de apoio constante para aprender, me comunicar e, principalmente, para me entender no mundo. Com o tempo, e muita luta, alcancei a independência. Hoje, vivo do meu trabalho e caminho sozinha, ainda que algumas feridas não possam ser vistas.

Voltei meus olhos para o estranho envelope. Peguei-o com cuidado, e antes mesmo de abri-lo, um aroma familiar escapou de seu interior: café. Sorri de leve. Só uma pessoa enviaria uma carta com aquele cheiro — meu velho amigo Hugo.

Rompi o lacre e desdobrei o papel. As palavras eram firmes, escritas com a caligrafia levemente inclinada que eu conhecia bem:

“Minha querida Emily Holwes, espero que esta carta a encontre bem.

Venho comunicar sobre uma oportunidade de trabalho. Recentemente, soube que você decidiu adentrar neste mundo de mistérios, e isso me deixou muito feliz. Indo direto ao ponto: há poucos dias, li no jornal escocês sobre uma pequena cidade situada ao sul do país — na verdade, um vilarejo. Boatos dizem que o local foi dizimado por completo e que todos os seus moradores morreram repentinamente. O nome desse vilarejo é Willowbrook.

A princípio, um conhecido meu viveu lá durante a década de 40. Acredito que ele seja uma boa fonte de informações. Seu endereço é 74, Lawe Rd, South Shield, Inglaterra.

Pelo trabalho, serão pagos £7.250 em caso de uma investigação bem-sucedida, ou seja, me trazendo resultados concretos. Você receberá £1.000 antecipadamente, e o restante apenas com garantia de sucesso. Confio em suas capacidades para solucionar este caso, por isso a estou contatando.

Assinado:

Hugo Selene”

Um vilarejo inteiro dizimado… e ninguém sabia explicar o motivo? No mínimo, intrigante. Hugo estava certo: eu era persistente, e se havia pagamento envolvido, ainda mais. Encontraria a verdade sobre Willowbrook, custasse o que custasse.

Pelas minhas contas, levaria cerca de quarenta e cinco minutos de metrô até o endereço do tal conhecido. Planejei ser breve. Quanto menos tempo ocupasse, melhor. Amanhã cedo, me arrumaria e partiria.

Por ora, me deitei, cobrindo-me com o calor reconfortante de um cobertor grosso. A noite prometia ser fria.

O sono, no entanto, trouxe comigo um peso amargo. Sonhos turbulentos se agitaram em minha mente — lembranças distorcidas, mas dolorosamente reais. Vi falhas, erros, fracassos… e, no centro de tudo, a morte dele. O homem que o matou ainda me escapava. Apenas uma silhueta: sobretudo negro, chapéu inclinado, nada mais. Eu, que sempre fui tão atenta aos detalhes, falhei naquele dia.

O pesadelo se intensificou. Meu coração batia rápido, e lágrimas quentes me cegavam. Revivi, como na primeira vez, o momento em que meu marido foi assassinado a sangue frio pelo homem encapuzado. A cena me engoliu. As cores desapareceram. O frio da noite se infiltrou até o osso. O dia em que eu não podia falhar… mas falhei.

Acordei de sobressalto. O quarto parecia mais escuro que antes. Respirei fundo, mas a angústia não passou.

Não havia mais motivo para esperar o amanhecer. Peguei meu casaco, guardei a carta no bolso e saí. O destino: o desconhecido.