Capítulo I — A Garota e o Espelho
Há muito tempo, nasceu uma garota em uma família real. Seu nome era Dinna. Seus cabelos dourados e olhos penetrantes tinham um encanto hipnotizante, fazendo com que todos ao seu redor se rendessem ao seu olhar. O rei Linus II, seu pai, enxergava nela uma oportunidade para fortalecer sua influência. Assim, decidiu usá-la como moeda de troca, selando um casamento arranjado com o príncipe de um reino vizinho.
O noivo era cobiçado por muitas mulheres, mas nunca dera atenção a esses interesses. Seu mundo era feito de páginas e histórias, e ele preferia a companhia dos livros à de pretendentes.
Na véspera do casamento, Dinna, inconformada, pôs em prática seu plano de fuga. Com todos os preparativos prontos, esperou a noite cair e, sob o manto da escuridão, desceu pela janela de seus aposentos. Seus pés tocaram a terra fria, e ela correu sem olhar para trás, indo cada vez mais fundo na noite, até que se viu diante de uma floresta.
A lua mal conseguia atravessar a copa densa das árvores, tornando o ambiente opressor. Mas ela não tinha escolha. Continuou seguindo.
Foi então que, entre os troncos retorcidos, avistou a boca de uma caverna. Seu interior era escuro, mas parecia um abrigo melhor do que o meio da floresta. Ao entrar, esperou seus olhos se adaptarem à escuridão. O que viu fez seu coração disparar.
No fundo da caverna, um portão dourado reluzia à pouca luz que entrava. Diante dele, um pedestal sustentava um livro de capa vermelha com detalhes prateados. As letras na capa eram indecifráveis, escritas em um idioma que ela jamais vira antes. Hesitante, Dinna estendeu a mão e tocou a capa do livro...
— E então, pai? O que acontece depois? — perguntou uma voz infantil.
O homem sorriu.
— Isso, meu filho, ninguém sabe. É aqui que a história termina.
— Mas e a garota? E o pai dela? O que acontece com eles? Isso não faz sentido! — protestou o garoto.
O pai soltou uma risada baixa e bagunçou os cabelos do filho.
— Algumas histórias não precisam de respostas imediatas. Agora vá dormir.
O despertador tocou às 7h10 da manhã. Arthur, um garoto de cabelos castanhos claros e olhos cor de mel, despertou num sobressalto. Olhou para o relógio e sentiu o coração disparar.
— Droga! — resmungou, pulando da cama.
Sua aula começava em vinte minutos. Jogou a roupa do uniforme, agarrou a mochila e saiu disparado de casa, pegando a bicicleta e pedalando o mais rápido que pôde.
Na escola, sua mente ainda estava presa à história que ouvira na noite anterior. Ele precisava de um desfecho. Um final digno para Dinna. Mas por mais que imaginasse diferentes possibilidades, nada parecia certo.
— Arthur! — A voz firme o fez despertar.
Levantou os olhos e viu sua professora o encarando, impaciente.
— Se continuar distraído, vai mesmo precisar da prova de recuperação na sexta-feira.
Ele engoliu em seco.
Durante o intervalo, ainda perdido em seus pensamentos, foi surpreendido por Lisa, sua amiga de cabelos ruivos e olhos azuis.
— Você fez a gente perder nota, sabia? — reclamou, cruzando os braços. — Sem você, não conseguimos apresentar o trabalho de história, e o professor simplesmente zerou a atividade!
Arthur suspirou e deu dois tapinhas no ombro dela.
— Eu vou falar com ele.
O resultado da conversa, no entanto, não foi como esperava. Quando voltou para a sala, apenas se jogou na cadeira, frustrado.
Quando a aula terminou, ele não perdeu tempo. Pegou sua bicicleta e foi direto para seu lugar favorito: um parque próximo ao centro da cidade. Sentou-se em um banco, tirou um caderno da mochila e começou a desenhar.
Enquanto esboçava uma árvore, sentiu algo estranho. O vento cessou de repente. As folhas, que antes dançavam no ar, caíam pesadamente ao chão.
E então, ele ouviu uma voz doce e melodiosa, quase um sussurro, o chamava.
Curioso e inquieto, seguiu o som até encontrar algo inesperado: um buraco enorme no solo, como uma escadaria que não deveria estar ali.
Hesitante, começou a descer.
Com cada passo, o canto ficava mais alto. Até que chegou ao fim da escada e se viu diante de um portão dourado.
Ao abri-lo, encontrou apenas uma sala vazia, exceto por uma caixa dourada no centro. Aproximou-se e a abriu.
Dentro, havia um espelho.
Mas quando o ergueu para ver seu reflexo, viu... nada.
O espelho escorregou de suas mãos e se espatifou no chão.
E então, um furacão de vento e risadas assustadoras o envolveram.
Arthur abriu os olhos, de volta ao banco do parque.
Tudo havia sido um sonho?