1478
🗓 24 de março de 1478
Oi, diário!
Prazer em te conhecer! Meu nome é Kaity e hoje é um dia muito especial: meu aniversário de 11 anos! Eu estava contando os dias, mal conseguia esperar! Foi tão legal! Mamãe me deixou faltar na aula só hoje. Passamos o dia inteirinho juntos — eu, ela e meu irmãozinho. Papai não conseguiu vir com a gente… disse que tinha um trabalho muito importante. Fiquei um pouco triste, mas tentei não deixar isso estragar meu dia.
Fomos até a padaria! Eu escolhi sorvete de morango, que é o meu favorito! Mamãe pegou de baunilha e o “Ás” (meu irmão!) quis o de chocolate. Lá, o Seu Geraldo, que sempre está na padaria, me deu um doce chamado sonho. Ele faz isso todo ano no meu aniversário e sempre fala:
“Coma enquanto pensa em um sonho bem bonito que quer realizar.”
Mas eu nunca sei direito o que pedir… talvez quando eu crescer eu consiga sonhar mais alto.
À noite, quando voltamos pra casa, papai já estava lá — me esperando com um presente! Era você, diário! Ele disse que eu podia te usar pra escrever sobre meus dias e meus pensamentos. Achei isso tão legal!
Depois do jantar, fomos num restaurante — ideia de mamãe e papai. Eu gosto mais da comida da mamãe, mas foi divertido. No caminho, encontramos o Perseu. Ai… eu gosto tanto dele! Ele me trata como se eu fosse sua irmã mais nova. Sempre me protege. Ele se abaixou do meu lado, me deu um abraço e colocou uma flor rosa atrás da minha orelha. Uma flor linda! Mamãe o convidou pra vir com a gente, mas ele disse que estava ocupado. Ele meio que trabalha pro rei… mesmo sendo filho dele. Isso é meio estranho, né? As pessoas aqui do vilarejo não gostam do rei. Dizem que ele não liga muito para as pessoas.
Depois disso, voltamos pra casa. Tomei um banho, coloquei meu pijama e agora estou aqui — escrevendo minha primeira página
Boa noite, diário, Com carinho, Kaity
🗓 25 de março de 1478
Oi, de novo, diário
Engraçado como o dia depois do aniversário parece… diferente. Tipo, ontem eu tinha 10 anos. Hoje, tenho 11. Mudou tudo, mas também não mudou nada. Acordei cedinho, umas 6h30. Meus pais já tinham saído pra trabalhar — como sempre. Tomei um banho, preparei meu café e coloquei a flor que o Perseu me deu na orelha de novo. Eu gostei tanto dela…
No caminho pra escola, vi o Perseu treinando com outro garoto num campo aberto. Ele estava ensinando técnicas de espada. Dizem que ele é o mais forte dos cavaleiros reais. Queria falar com ele, mas estava atrasada.
Na escola… bom, não tenho muitos amigos. Falo com alguns, mas geralmente fico sozinha. Antes, meu pai era nosso professor. Agora é a professora Victoria. Ela é legal também, nos deu umas aulas até que divertidas.
No recreio, sentei num banco e fiquei lendo. O livro é sobre um grupo de aventureiros explorando uma floresta misteriosa. Ainda não aconteceu muita coisa, mas estou animada pra continuar.
Na volta pra casa, encontrei o Perseu de novo. Ele elogiou a flor — disse que combinava comigo. Fiquei tão feliz… esperei o dia todo que alguém notasse, e só ele notou.
À tarde, depois do almoço, desenhei. Fiz um desenho especial pro Perseu. Nele, ele está me carregando nas costas e sorrindo. Eu passei a tarde toda desenhando com todo carinho. Quando terminei, fui procurá-lo e o encontrei no mesmo campo, sentado numa pedra olhando o céu. Entreguei o desenho. O rosto dele se iluminou. Acho que ele gostou. Sentamos juntos e ficamos observando as nuvens em silêncio. Foi um momento bonito.
Depois ele me levou até em casa. Jantei, tomei banho… e agora estou aqui, com o coração quentinho.
Boa noite, diário. Kaity
🗓 30 de outubro de 1478
Oi, diário…
Hoje… não foi um bom dia. Acordei cansada, com dor de cabeça. Não queria faltar na aula, mas estava doente, então mamãe me levou até a clínica onde a vovó trabalha. Ela me examinou e disse que é só uma gripe, mas me senti tão fraca… Tô cansada de tudo. Ficar doente me faz pensar demais. Às vezes, me pergunto se eu não me esforço demais pra agradar todo mundo. Se eu não tento ser perfeita só pra me sentir… aceita.
Passei o dia em casa, deitada, desenhando e estudando um pouco. Mamãe ficou comigo, preparou chá e jogamos uns jogos de tabuleiro. Foi bom ter ela por perto. Me senti cuidada. Mas mesmo assim, senti um vazio. Um silêncio esquisito dentro de mim. Agora já tá tarde, estou caindo de sono.
Boa noite, diário,… Kaity
🗓 04 de novembro de 1478
Bom dia, diário!
Finalmente estou melhor! Acordei bem e consegui ir pra escola depois de tantos dias deitada. Foi estranho… mas bom. O clima estava ótimo — friozinho gostoso, sabe? Aquele tipo de frio que faz você abraçar o casaco com carinho. Na escola… foi igual de sempre. Eu entrei, me sentei… esperei. Ninguém veio perguntar onde eu estive. Ninguém perguntou se eu melhorei.
Será que sentiram minha falta? Será que alguém percebeu que eu sumi?
Na volta pra casa, encontrei o Perseu. Ele foi o único que notou. Veio até mim, perguntou como eu estava, disse que sentiu falta de conversar comigo. Fiquei feliz. Muito feliz. Conversamos um pouco — e por um momento, o mundo pareceu mais leve. Chegando em casa, jantamos. Depois fui pro meu quarto… e sabe, diário, eu me senti triste de novo. Não sei por quê. Nada aconteceu. Mas meu coração ficou apertado, como se eu estivesse esperando algo que não veio. Mas tudo bem.
Amanhã vai ser um novo dia.
Boa noite, diário. Kaity
1479
🗓 01 de março de 1479
Oi, diário…
Hoje foi um dia importante. Daqueles que começam com o coração acelerado, cheio de ideias e vontade de fazer algo especial. Amanhã é o aniversário do Perseu.
E eu… queria surpreender ele. Fazer algo que fizesse o coração dele sorrir, igual ele sempre faz com o meu. Ele é uma das poucas pessoas que realmente olham pra mim — de verdade, como se eu fosse alguém que importa.
Então tive uma ideia! Um jogo, tipo uma caça ao tesouro — com pistas e desafios que levassem até uma surpresa final. Corri até a delegacia, onde ele trabalha, só pra espiar o lugar e pensar onde esconder as pistas. Por sorte, ele não estava lá. Fiquei olhando tudo, imaginando cada pedacinho como uma fase de um jogo secreto só nosso.
Voltei correndo pra casa com a cabeça cheia de ideias e o coração pulando. Comecei a escrever as pistas em papéis — dobrando, desenhando, colando… achei que ia ser fácil, mas não foi não! Minha mão doía e o tempo voava. Mas continuei. Eu queria muito que desse certo. Fiz várias pistas!
Voltei à delegacia e, como uma espiã invisível, escondi cada papel em um lugar diferente, com pequenos enigmas. Amanhã de manhã coloco a primeira pista na porta, pra ele encontrar logo que chegar.
Depois… eu estava exausta. Mas ainda faltava o bolo. Chamei a mamãe pra me ajudar. A gente tentou fazer juntas, mas, olha… nem ela nem eu sabemos confeitar direito. Então fomos até a padaria do Seu Geraldo. Ele nos levou pros fundos, onde tudo cheira a açúcar e pão quentinho. Lá, nós três começamos a fazer o bolo juntos. Eu ri tanto! Fazia tempo que não me sentia assim, leve, rindo de bobeira com farinha no nariz. O bolo ficou pronto, e o tio Geraldo disse que deixaria a decoração por conta dele. Que fofo!
Voltei pra casa arrasada de cansaço. Tomei um banho… meu shampoo acabou hoje. Aquele que cheirava a flor doce e me fazia sentir bonita. Que pena. Mas tudo bem.
Boa noite, diário. Torcendo pra amanhã ser inesquecível. Com carinho, Kaity
🗓 02 de março de 1479
Aaaaaaaa!!! Deu certo!
Nem acredito, diário, deu tudo certo! Tá, respira… vou contar desde o começo! Acordei super cedo, quase pulando da cama. Me troquei, peguei o bolo (com todo cuidado do mundo!) e corri até a delegacia. Coloquei a primeira pista na porta, e depois me escondi com o bolo no meu esconderijo secreto: embaixo da mesa principal, tem uma entrada minúscula onde eu consigo me enfiar direitinho. Ninguém sabe que existe — só eu. É meu cantinho invisível.
Fiquei lá, ouvindo ele chegar. Quando encontrou a primeira pista, começou a rir sozinho, falando baixinho tipo:
“O que essa menina tá aprontando agora…”
Ouvir ele falando de mim assim, com carinho, me fez sorrir no escuro.
Uma por uma, ele foi seguindo as pistas. Cada passo, cada enigma, cada risada dele ecoando pela delegacia. Até que ele chegou à última pista. A que dizia onde eu estava. Saí do meu esconderijo, com o bolo nas mãos, e comecei a cantar parabéns.
Três guardas que estavam ali cantaram junto. Foi tão engraçado e bonito. O sorriso dele se abriu como se o sol tivesse nascido dentro da delegacia.
Depois, dei a ele o meu presente. Não tinha contado antes pra você, porque queria te surpreender também, diário. Era um desenho. O melhor que já fiz.
Nós dois, deitados num campo aberto, rodeados de árvores, olhando pro céu.
No canto, escrevi:
“Para você, que é a melhor pessoa de todas. Quem sempre esteve ao meu lado. Te amo muito. Obrigada por sempre ser tão incrível comigo.”
Ele olhou o desenho em silêncio. E então… começou a chorar.
O Perseu… chorando. Nunca achei que veria isso.
Ele se abaixou e me deu um abraço forte, quente, tão apertado que parecia que ele estava tentando me proteger de tudo. Naquele momento, eu não queria mais nada. Aquele abraço curou algo dentro de mim.
Tem dias em que me sinto… estranha. Como se tivesse um buraco dentro do peito. Uma tristeza fria, sem nome. Às vezes eu só queria gritar. Me esconder. Sumir um pouco. Mas hoje, aquele abraço me aqueceu. Como se ele dissesse: “tá tudo bem, eu tô aqui.”
Depois disso, passamos a noite juntos. Rindo, conversando. Quando já era tarde, nos deitamos na grama. Me deitei sobre ele, olhando as estrelas. Era tudo tão calmo… Mamãe disse que eu acabei dormindo ali mesmo. Perseu me trouxe no colo pra casa.
Obrigada por estar comigo, diário.
Hoje foi um dia que eu nunca quero esquecer.
Com amor, Kaity
🗓 08 de julho de 1479
Oi, diário… Hoje… não to com muita vontade de escrever. Sabe aqueles dias que só passam? Que você vive, mas parece que não viveu nada? Acordei, fui pra escola, fiquei sozinha como sempre. Todos têm alguém com quem rir, brincar, correr. Eu fico olhando de longe. Não que eu me importe. Eu digo isso pra mim o tempo todo:
“Você não precisa de amigos. Você está bem sozinha.”
Mas às vezes… parece mentira.
Quando cheguei em casa, o “Às” estava brincando. Me sentei do lado dele e só fiquei ali. Observando. Aliás, acho que nunca te contei por que chamo ele assim. O nome dele é Luck — tipo sorte. Mamãe disse que ele nasceu num momento difícil e trouxe esperança. Já eu… nunca soube o significado do meu nome. Talvez nem tenha um.
Mas chamo ele de “Às” porque ele é meu trunfo. Meu raio de sol. Meu segredo mais bonito. Ele sempre me faz sorrir, mesmo quando o mundo tá cinza. Mesmo quando eu me sinto invisível. Ele sofre bullying, sabe? Uns garotos chatos zombam dele, chamam ele de fraco. Mas ele… ele nunca se deixa abalar. Sorri mesmo assim.
E se alguém encostar um dedo nele, vai ter que se ver comigo primeiro. Eu só quero proteger ele. Que ele continue sendo essa luz, esse menino que transforma tristeza em gargalhada.
Acho que é isso por hoje.
Boa noite, diário.
Amanhã… espero que seja melhor.
Kaity
🗓 19 de novembro de 1479
Oi, Diário…
Hoje foi um daqueles dias em que tudo parece estar mais silencioso do que o normal. Não o silêncio bom, sabe? Aquele silêncio que abraça, que acalma… é o tipo de silêncio que grita. Eu fui para a escola, como sempre, mas parecia que eu nem estava lá. Ninguém me olhou, ninguém falou comigo, eu poderia ter evaporado no meio da sala que ninguém teria notado.
Tem dias que eu sinto como se fosse um fantasma. Não é exagero, é real. Eu ando pelos corredores, escuto risadas, conversas, segredos sussurrados… e tudo isso parece estar em outro mundo que eu não faço parte. Eu até tento sorrir de volta quando olham pra mim — quando olham —, mas é como se meu sorriso fosse de vidro, frágil, prestes a estilhaçar. Acho que as pessoas só notariam se o barulho do estilhaço fosse alto o bastante.
Acho que eu só queria que alguém me perguntasse de verdade se eu estou bem. Não por educação, mas por se importar. Sinto falta de me sentir vista, de me sentir parte de alguma coisa. Até o Perseu andou distante… e eu nem posso culpá-lo, ele tem a vida dele. Só que a minha parece parada, congelada, como se todo mundo tivesse seguido em frente e eu tivesse ficado presa.
Minha mãe anda tão cansada, e eu não quero dar mais peso pra ela, já basta tudo que ela carrega. E o Ás… meu irmão ainda é meu raiozinho de sol, mas até ele percebeu que ando diferente. Hoje ele me abraçou e disse que me ama. Eu sorri, mas depois chorei escondido no banheiro. Não quero que ele me veja assim, não quero que ele saiba que eu estou tão… vazia por dentro.
É estranho, porque tem dias em que eu quase acredito que tudo vai melhorar. Mas tem outros, como hoje, que eu só sinto esse peso no peito, como se eu tivesse me afogando dentro de mim mesma. Será que é sempre assim com todo mundo? Ou será que sou só eu que sou quebrada demais?
Desculpa, diário, por escrever tanta coisa triste. É só que… você é o único que me escuta sem me julgar.
Boa noite, se é que isso ainda faz sentido.
1480
🗓 07 de julho de 1480
Hoje… hoje simplesmente não deu. Não consegui. Não consegui levantar da cama, não consegui respirar direito sem sentir esse aperto no peito que não vai embora. Tudo parece escuro, pesado, gelado — mas não o frio do vento, é um frio por dentro, aquele que parece que nunca vai passar. Eu só queria sumir. Não morrer… só desaparecer, virar fumaça, evaporar. Ninguém notaria, ninguém sentiria minha falta. Eu tenho certeza disso. Eu me esforço tanto pra parecer bem. Sorrio, ajudo, tento ser leve. Mas é tudo mentira. Por dentro, parece que estou apodrecendo. Um pedaço de mim morre todo dia e ninguém percebe. É como gritar debaixo d’água: você sente que está se afogando, mas ninguém escuta. Às vezes eu me pergunto se sou só fraca. Se é tudo culpa minha. Talvez eu pense demais, talvez minha cabeça invente dores que não existem. Mas e se for real? E se isso for mesmo a minha vida? Uma luta constante pra continuar existindo, pra não ceder à vontade de sumir de vez? Eu não quero morrer. Eu juro que não quero. Mas tem momentos em que penso: ‘e se esse for o único jeito de acabar com tudo isso?’. Eu não quero pensar isso. Mas penso. E me odeio por isso. Eu só queria estar bem…, mas eu não estou. E dizer isso em voz alta parece impossível.
🗓 08 de julho de 1480
Hoje eu levantei. Só isso já pareceu um esforço gigante. Acordei pensando: ‘vai que, por algum milagre, o dia seja bom’. Não foi. Mas eu fui mesmo assim. Fui pra escola, caminhei pelos corredores como um vulto. Ninguém me viu. Ninguém nunca me vê. O Perseu veio falar comigo. Perguntou se eu estava bem — acho que ele percebeu que eu sumi ontem. Eu menti. Sorri e disse que sim, que estava tudo certo. Ele não precisa saber. Ninguém precisa. Carregar isso já é pesado demais pra mim, não quero que ninguém mais sinta. Ele me chamou pra gente ver o céu juntos, como fazíamos antes. Eu adorava isso. Mas eu recusei. Disse que não estava a fim. Vi a expressão dele mudar e quis voltar atrás, mas já era tarde. Acho que magoei ele. E é sempre assim, eu acabo machucando quem me quer bem, porque eu estou quebrada demais pra aceitar qualquer gesto de carinho sem me sentir culpada. À noite, deitei na cama e chorei em silêncio, como todos os dias. A verdade é que meu coração está exausto. Eu fico fingindo que estou bem até pra mim mesma. Escrevo nesse diário porque talvez seja o único lugar onde eu ainda possa existir sem mentir. Mas até aqui, às vezes, eu me sinto ridícula. Se amanhã eu acordar… não sei. Talvez contra minha vontade. Talvez com um pouquinho de esperança. Ou talvez só mais um dia em que eu finja que estou viva.
🗓 10 de julho de 1480
Hoje eu pensei em dar um fim.
Não como pensamento solto, não como fuga momentânea… foi real. Pela primeira vez, eu olhei pro nada e achei paz na ideia de não existir mais. Não me assustou. Me aliviou. Eu sou um erro. Um erro que machuca quem se aproxima. Até quando tento amar, eu destruo. Tudo o que eu toco apodrece. Eu vejo nos olhos das pessoas — até as que tentam me ajudar — aquele brilho ir embora. Perseu… até ele. A única pessoa que se importava. Eu sinto que estou puxando-o pra esse abismo comigo. Eu sou tóxica, sou o próprio veneno. E o pior é que eu sei disso.
Eu sei o que sou. Eu sei que sou o peso que ninguém quer carregar. Sou aquela presença que deixa tudo mais silencioso, mais tenso. Eu sou a mancha na foto perfeita, a lágrima que ninguém quer ver. Todo mundo se sentiria melhor se eu não estivesse aqui. Eu sei. Eu sinto isso. Chorei o dia inteiro. O rosto tá inchado, os olhos ardem. O travesseiro encharcado já nem seca mais. Eu tô escrevendo com os dedos tremendo, com a respiração falha. Cada segundo parece uma tortura. O tempo não anda. E quando anda, só me empurra pra mais fundo. Eu queria conseguir gritar, pedir ajuda, mas minha voz sumiu. Ninguém ouve. Ninguém quer ouvir. E eu já não quero mais que ouçam. Cansei de implorar amor. Não sou mais uma pessoa, sou uma ferida aberta que nunca fecha. Se isso acabar amanhã… talvez tudo melhore. Para todos. Não quero que chorem. Não quero que se culpem. Quero que entendam que eu só não aguentei. Que viver doeu mais do que deveria. E se alguém ler isso algum dia… me perdoa.
Por existir tanto. Por doer tanto.
🗓 11 de julho de 1480
Olá, meu diário.
Hoje… foi diferente. Ainda dói. Ainda parece que estou carregando o mundo nas costas. Mas, de algum jeito… a dor não foi tudo o que eu senti. Eu acordei como sempre: com vontade de não existir. Com aquele peso no peito, aquela tristeza que não me larga. Mas mesmo assim, eu levantei. Não porque queria, mas porque alguma parte de mim sussurrou que talvez hoje fosse um pouco menos ruim. E foi.
Não estou dizendo que tudo melhorou de repente, como num passe de mágica. Não. Meu coração ainda pesa, ainda tem partes de mim quebradas que ninguém pode consertar. Mas hoje… eu senti algo novo. Eu passei o dia com alguém. Um amigo. De verdade. Ele não me perguntou nada difícil, não me forçou a sorrir. Só ficou ali. Do meu lado. Me fazendo sentir que, talvez, eu não seja tão sozinha quanto acho que sou. E à noite…
Aconteceu algo que ainda estou tentando entender. Eu conheci uma garota. Não sei nem como descrever. Ela era tudo. Forte, viva… perigosa até. Mas havia uma luz nela. Algo que me puxou. A gente conversou como se o tempo tivesse parado. Pela primeira vez em tanto tempo, eu não pensei na dor. Eu só… senti. Senti ela. E, pela primeira vez, quis sentir mais. Eu estou apaixonada. Sim, é estranho dizer isso assim. Ainda mais por ser por outra garota. Mas… eu não vou mais negar o que eu sou. O que eu sinto. Se isso é errado, então que seja o meu tipo de errado. Eu só sei que, perto dela, meu mundo não parecia tão escuro. Hoje eu não chorei.
Hoje eu respirei sem culpa.
Hoje eu senti que talvez… só talvez… eu mereça um pouquinho de paz. Não sei o que vai acontecer amanhã. Talvez tudo volte a desmoronar. Mas hoje, por mais improvável que pareça… eu estou bem.
E isso já é mais do que eu podia imaginar. Tudo vai ficar bem. Agora, eu tenho amigos. Eu tenho alguém ao meu lado.